Recomeço

Não sei se deveria chamar-lhe assim... no fundo a Clara, a Madalena e a Rita, sao as mesmas... talvez eu tenha mudado, e agora tenho necessidade de "abrir" uma segunda etapa neste blog delas! A Rita, entra agora aqui... já era outra face, mas num outro local, agora, passa a ser completo o blog! "as outras 3 faces". Muitos dos textos delas, serao publicados no dia 20 de outubro (ja daqui a quinze dias), num livro de poesia chamado de "avesso da alma" que por perputencia (talvez), deixei que ficasse meramente com o meu nome e nao com o delas! porém... quem as conhece, sabe quem sao elas e por isso, depois do primeiro livro de nos as 4, quero iniciar outra parte das nossas vidas!
Que seja um novo marco na vida delas e na minha também...
Uma das poucas intervençoes de quem lhes da apenas papel e tinta para escrever!
Ana Castro
(fotografia da capa do livro, por Marta Ferreira)
Onde é que isto me leva?
Queria arrancar este desalento deste pensamento intolerante…
Parece que ele não me deixa em lado nenhum! Pensei que vir para aqui poderia mudar alguma coisa… não é de todo mentira, mas mesmo assim, há momentos em que me sento aqui na varanda e por muito que queira e tente, a barreira que me costuma manter longe da realidade, torna-se algo transparente, gelatinoso, frio…. Algo que me deixa ver a verdade do que é o mundo onde eu deveria estar a viver neste momento e envolve-me neste desalento, cola-se a mim e deixa-me esta sensação de não conseguir mudar nada…
Esta casa deixa-me numa paz quase constante, mas sei que aqui me escondo, que paro de viver! Não sei onde me leva a realidade dual… Acho que apenas me adia! Lá fora, não sei que fazer, cá dentro, nada posso fazer! Para onde hei-de eu de caminhar?
Outro dia foi tão difícil mandar-te embora… Apesar do meu aspecto seguro e confiante quando te olhei e abri a porta sem mais palavras e esperei que saísses! Apesar do meu pedido de solidão, das minhas regras que determinavam o fim, ouvir-te dizer que gostavas do meu cozinhado, fez-me sentir bem, já que ele me personificava, ainda que de forma parva e estúpida! Mas estranhamente resignaste-te rapidamente à ideia, agarraste no casaco e saíste…
Quando ouvi o carro arrancar, lembrei-me que não te pedi as chaves de volta, mas sem saber muito bem porquê, já não me importava muito…
Madalena Rocha
8-12-2006
Fuga de mim

Senti-me presa aqui… reprimida! Quero escrever, mas não posso… Quero gritar, mas não me deixam… quero ser livre, mas estão a prender-me (ou será que fui eu que me prendi?) Quero viver, quero ser eu, mas já não sei como o fazer…
Por isso parei!
Desliguei todos os relógios, todos os tics irritantes e todos os tacs apressados!
Parei a minha vida… e parti! Para o meu mundo à parte, a minha outra realidade… abracei um novo mundo, uma nova realidade, uma nova casa!
Tenho rasgos de loucura, rasgos de lucidez, rasgos de confusão, rasgos de mim… e acabei por chegar à conclusão que eu sou demasiado “rasgada”!
Quando estou sozinha, aqui nesta casa… sinto-me ser diferente! Sinto menos o sentido de estar perdida, a confusão não é tão obvia… talvez esteja apenas a fugir-lhes, mas é tão mais fácil deste modo!
A decisão foi fácil, foi simples, foi automática…
- Estou cansada de tudo isto, estou cansada de viver!
Peguei no básico e pus-me a caminho. Quando cheguei à porta, reparei que ainda estavam bem marcadas as rodas do carro na folhagem junto ao portão! Respirei fundo! Não sabia se estar ali sozinha me transportaria para um lugar de paz, ou se me deixaria vencer por mim mesma, pelos meus problemas, pelas minhas confusões… Continuava a ser um mundo paralelo, continuava a ser uma loucura estar ali, porém hoje, uma loucura solitária!
Estava sozinha na alameda, parada em frente ao portão. No meu bolso tilintavam as chaves… Antes de entrar, olhei em redor! Reparei nos molhos de folhas secas, estavam alinhadas, como se alguém tentasse em vão junta-las… Pensei em respeitar esse trabalho de alguém sem nome nem rosto, mas desta vez a loucura transcendeu-me e inundou todos os meus poros… comecei a pontapear as folhas e a deixa-las voaram em meu redor numa dança descontrolada, tocarem o meu rosto gelado e senti-me quente, abraçada por algo, por Alguém que eu não via mas que sentia! A mistura daquelas cores um tanto ao quanto quentes e sujas, extasiava-me e vi-me sorrir sem motivo!
Abri a porta… Estava tudo como deixara-mos! Pousei o saco com comida no balcão de mármore frio da cozinha, a mala de roupa na cama grande e por momentos estirei-me transversalmente nela! Na penumbra, tentei pensar em tudo o que fazia, mas não conseguia! De certa forma, sentia que a realidade dual me estava a envolver lentamente, como um veneno inodoro, incolor… ela estava a apropriar-se de mim!
Fui percorrendo a casa e abrindo todas as janelas e portadas deixando que o som do mar, o ar salgado entrasse e rodopiasse em todas as divisões… Depois, arrumei meticulosamente tudo o que trouxera nos armários! Não tinha pressa e sentia que cada gesto meu era mais cuidadoso, mais preciso… me aproximava de uma perfeição, ainda que um tanto ao quanto virtual!
Sem mais nada que fazer ali, vesti o casaco comprido, o gorro e sai em direcção à praia! O vento ficara mais forte e agora fustigava-me o rosto violentamente! Sabia que o mar estaria bem bravo quando lá chegasse! Estaria bravo comigo?
Subi as dunas e sentei-me no passadiço… não havia ninguém em redor, nada… só eu, o mar, o vento, a angústia de não saber mais nada… Tentei estabelecer uma ligação qualquer com o mar, com a realidade dual, com aquela praia…mas já não tinha forças para nada!
Comecei a questionar-me! O que fazia eu ali? Quem era aquela estranha que eu via todos os dias no espelho? O que fizera ela com a minha vida? Qual era o sentido da minha vida? Um sorriso irónico percorreu-me o rosto! Sabia que tinha respondido a essa pergunta há muito pouco tempo, mas incrivelmente, já não me lembrava do que respondera! Que desilusão para quem mo perguntou, não?
Não sei o quero, o que sinto… na verdade eu não tenho personalidade fixa, nem sei quem sou! Às vezes desaparecer, parece ser a única solução…
Antes que a loucura me transcendesse, decidi escapar-me na realidade dual! Talvez aqui eu me encontre, talvez encontre Deus…Ele deve andar por ai algures, não?
Uma gota fria caiu-me no rosto! Por momentos fiquei confusa! Não sabia se seria uma lágrima minha ou do céu… mas rápido me apercebi que já nem lágrimas tinha, que a minha tristeza era mais profunda do que qualquer dor somada e multiplicada!
Despi o casaco e descalcei-me, arregacei as mangas, soltei o cabelo daquele gorro grosso e fui caminhando lentamente pela areia!
O frio nos meus pés, fez-me sentir viva… e senti-me vagamente feliz, por conseguir ter pelo menos uma certeza: sentia frio! Numa vida onde nada é certo, aquilo, fez-me sentir bem!
O vento violentava-me o rosto, o cabelo, as roupas…
Quando estava mais perto da água, a chuva começou a ficar mais intensa, então abri os braços, rodopiei umas quantas vezes com o rosto voltado para o céu e os olhos abertos até me deixar cair de costas na areia… Esvaziei-me por completo e fiquei a sentir apenas as coisas simples deste momento só meu! O frio, o mar, o toque suave de cada gota no meu rosto… Fiquei assim muito tempo! Não sei precisar quanto tempo foi ao certo, sei que não foi demasiado, nem foi pouco, foi o exacto! Sem mais nada, só o meu corpo, as sensações elementares da vida…
Foi-me fácil perceber que se eu não queria perder de todo tudo o que ainda restava da minha vida, teria que começar pelo básico!
Quando a tempestade acalmou e o meu corpo já estava demasiado molhado, chegando ao ponto de eu não saber mais se estava deitada na areia ou na água, reuni as restantes forças de mim e ergui o meu corpo! Sentia-me pesada… as roupas estavam a tornar-se um embaraço e dificultavam-me o andar!
Fui caminhando para casa! Casaco no ombro, sapatilhas numa mão, cabelo colado ao rosto… A chuva não parava, mas eu não tinha pressa de nada! Sempre desejara fazer aquilo e hoje, não havia mais nada moral ou social em que pensar ou me preocupar!
Cheguei à alameda… tudo permanecia deserto, sem qualquer sinal de vida! Os meus pés descalços pisaram um dos ainda restantes montes de folhas agora já molhadas! A sensação foi agreste, selvagem até, ouso dizer! Mas soube-me bem… Era um misto a áspero e a escorregadio… Todos os castanhos, amarelos, beijes e laranjas apesar de molhados faziam-me sentir um morno em mim, já que o meu corpo já estava no seu pólo glaciar!
Madalena Rocha
4-11-2006
Baptismo da realidade dual
Sentei-me prestes a digerir tudo o que sentia… Respirei fundo! Que dia de sonho… Quando me sentei no banco ao teu lado no carro, não imaginava nada, nem sequer onde iríamos nós de ir ter! Uma música tocava ao acaso na rádio, o dia estava ameno, suave… O céu pintalgado de nuvens cinzentas e rasgos de sol…
Falamos despreocupadamente, como se nada neste dia fosse diferente, como se não tivéssemos programado nada (o que no fundo não deixa de ser verdade), como se tudo fosse perfeitamente normal!
Sem rumo (ou não) paramos em frente da casa… Era pacata! Gostei dela logo no primeiro olhar de relance… Tinha um ar envolvente que me absorvia na simplicidade, no rústico… Quando sai do carro, olhei-a bem de frente, tentando não perder nenhum pormenor. Gostava, decididamente! Lentamente fui-me encaminhando para o portão e entre o carro e o mesmo, dei comigo perdida no misto quente de cores dos inúmeros montes de folhas secas… amarelos, laranjas, castanhos, beges… Por momentos, apeteceu-me pontapear todas elas, faze-las voarem em nosso redor para que no ar o ambiente quente se tornasse mais mágico… mas depois de pensar em todos os prós e contras, conclui que estar ali, só por si, já era mágico o suficiente!
Por dentro… ainda mais acolhedor… senti-me em casa! E a cumplicidade de cada gesto nosso, só me fazia querer que tínhamos acabado de imitar a brodway ou holiwood e nos tornáramos personagens vivas de um filme qualquer! Depois de um pequeno reconhecimento, estirei-me numa das camas e deixei-me ficar embrenhada numa conversa que já não me lembro muito bem… a penumbra, a simplicidade de cada um de nós em sua cama numa conversa banal…
O que estarias a pensar? O que estarias a imaginar? O que esperavas deste dia? Estas questões não me deixavam ouvir o que realmente me dizias… Sabia que este dia, este lugar… tudo, era novo, era o nosso mundo, a nossa realidade paralela, mas… no fundo, o que seria isso? Não discutíramos regras, normas, decretos…nada! Quis fazer-te ouvir estas questões, mas a verdade, é que estava convencida que te questionavas do mesmo modo! Por isso, que fosse como fosse… deixei que o tempo construísse as raízes da realidade nova…
Perto dali, o mar sussurrava!
Descalçamos as sapatilhas, arregaçamos as calças até aos joelhos e fomos andando pela praia deserta, sem rumo, sem objectivo! Era tudo novo… A conversa era agradável, e nada soava a compromisso, a relação… apenas a cumplicidade da ousadia de desafiar a vida, a ética, a moral e saltar sem medo para a realidade paralela que decidimos construir… Sentamo-nos algures a olhar as ondas, a espuma, o céu cinzento…Não era necessárias muitas conversas, na verdade, não sei se haveria assim tanto para se dizer!
Uma aposta! Fria? Muito fria? Gelada? Sorri!
- Fria!
- Gelada!
- Vamos ver? – Sai disparada até junto ao mar! Lentamente deixei que o êxtase da água me percorresse! Sentia-me a adaptar-me verdadeiramente a esta nova realidade…
- Fria, ganhei! – O meu sorriso era trocista, confesso! Trocamos um olhar cúmplice… apetecia-me mergulhar, os teus olhos diziam o mesmo! Olhei-nos… completamente vestidos! Não estava preparada para mergulhar e por muito que tudo aquilo parecesse saído de um filme, a praia, não estava deserta (pelo menos, não tanto quanto desejaríamos). Corremos para casa, em busca de alguma peça de roupa esquecida dos tempos em que fora habitada… Confesso, comecei a ficar entusiasmada com a ideia de mergulhar naquele mundo, naquela realidade… a água, o mar, o vento… desafiar as regras… Depois de uma vista de olhos rápida ali estava! Não o melhor, mas servia para matar a nossa vontade…
Voltamos à praia e esperamos que as famílias felizes que passeavam despreocupadas pela praia se afastassem para dar-mos asas à nossa loucura, a primeira de muitas, acho! Enquanto isso, olhávamos o céu lado a lado… era fim d tarde, mas havia bastante claridade… o céu tornara-se mais denso de nuvens cinzentas e o vento, ficara mais forte! Era um puro dia de Outono e nós, prontos a mergulhar nas águas frias (e não geladas) do nosso mar, da nossa realidade… Na realidade, não passava de um baptismo! Ia-mos baptizar o nosso mundo, a realidade paralela, as nossas personalidades duais… os nossos corpos, um pouco estranhos um ao outro ainda!
- Vês as estrelas?
Ri! Estrelas? Em plena tarde?
- Claro!
- E olhos?
- De quem? De Deus? Sim… estou a vê-los!
- Se calhar é um leão, não Deus!
- Tens razão, estou a ver-lhe a juba!
Cai-mos na gargalhada, na loucura contagiante, absorvente e já tão embrenhada a que nos expúnhamos e estranhamente, sem ninguém ver!
Quando os olhos mais indiscretos se afastaram do par de amigos doidos a rirem na areia, vesti a saia comprida e o casaco exageradamente grande para mim… Por momentos, senti o meu corpo completamente nu por debaixo daquilo e um arrepio percorreu-me! Rapidamente, tiraste a roupa e os teus boxers bicolor saltaram-me à vista! São giros… Não te tinha dito isto, pois não?
Corri sem mais nada que me prendesse par o começo de um novo mundo, para o meu baptismo sem retrocesso… a água inundava-me a alma, o corpo, a vida! Sentia-me livre… se não fosse por ti, o meu baptismo teria durado até ao anoitecer… O teu corpo arrepiava a todo o momento… Estarias a sentir o mesmo que eu? A liberdade? Não sei… só me queria perder na nova realidade!
Quando saímos, como se tudo aquilo fosse normal, abraçamo-nos numa única toalha e olhamos o mar juntos… Imaginei-me mesmo como se tudo fosse um filme e acabei por perceber, que não estava muito longe de o ser… ali, éramos a outra parte, o outro lado da dualidade da personalidade que temos, ali era o outro mundo! Da forma cúmplice e entre sorrisos, trocamos de roupa e guardamos o nosso baptismo no cantinho das recordações diferentes e especiais da nossa memória! Tenho a certeza que nunca ninguém teve uma pia baptismal como a nossa, mas acho que é justo, pois ninguém vive duas realidades, nem muito menos, alguém vive a nossa realidade paralela! Abandonamo-la sorrindo e prometendo voltar em breve, o mais breve possível! Por agora, fora a minha memória (e a tua) a única coisa que resta deste dia, é o teu perfume no meu casaco!
Madalena Rocha
15-10-06
Lá vai a prostituta
Lá vai a prostituta
Com o seu maior decote
Lábios pintados de um brilho apenas
Para despertar o desejo
De qualquer um que passe!
Nos olhos um risco negro carregado
Realçando o verde água
Natural de si mesma
Cabelos molhados
E peito encharcado numa fragrância doce!
Lá vai ela!
A prostituta!
Lá vai para mais uma viagem
Ao mundo desconhecido do seu corpo
E ao de outrem…
Quem? Não sabe,
Mas também não importa!
Cada dia um diferente,
O seu trabalho,
Apenas dar-lhes prazer!
Caminha nervosa de um lado para o outro
Mais uma vez
Puxa os peitos para cima
O decote mais a baixo
Ignora quem passa
Numa atitude altiva
(mas demasiado frágil)
Mas vê-lhes bem o desejo no rosto
Num reflexo já completamente inato
Quando vê ao fundo o seu transporte
Troca a aliança de mão
O coração de ouro que carrega no peito
Entre os seios já suados
Do insuportável calor
Limpa o canto dos lábios carnudos
Borratados por um meio sorriso
Que lhe escapou há pouco
Porquê?
Nem ela sabe!
Põe os óculos de sol
Para que o ar de mistério
E sensualidade suba ao rubro!
Cada um que olha ao passar deseja
Cada um que olha ao passar ela despreza
É o seu oficio
Que ninguém sabe
Que ninguém pode saber
Só isso!
Ela entrou
Ele mirou
Ela tentou sorrir
(Um sorriso falso)
Ele não percebeu
Ela permaneceu na entrada
Como era costume
Ele veio de olhar sedento
Ela fingiu não perceber
Soltou o vestido num único gesto
Seco
Rápido
Mecânico
Mero hábito de trabalho
A lingerie berrava aos olhos dele
Ela fechou os olhos
Ele não conteve mais o seu desejo
Ela viu o seu príncipe
(não o marido,
Que esse não entra nos seus sonhos)
De olhos fechados ficou
Ele de olhos bem abertos a devorou
Olhos verdes ele não viu mais
O seu rosto de puro desejo carnal
Ela não pode perceber
No fim ele gritou
Dela,
Num um sussurro suou
Voltou a abrir os olhos
Verde mais vivo que nunca
De lágrimas a transbordar
Ele arfando ao seu lado
Nem reparou
Ela ainda nua e suada
Agarrou o maço de notas
Perdido na mesa-de-cabeceira
(sublinhe-se bem,
Que este era pequeno,
Ser prostituta não rende assim tanto,
Não quando se estava no inicio
Não quando a necessidade de dinheiro
Era maior)
Vestiu de novo o vestido berrante
Não disse nada
Ele já se abandonara à sua exaustão
Saiu
Voltou pelo mesmo caminho
Na sua memória
Fica o sonho com um príncipe
(que fez amor com ela amando-a)
E no seu bolso
Um maço magro
De notas sujas
Perto de casa
Volta a colocar a aliança na mão esquerda
Abriu a porta
Ninguém em casa
Soltou um suspiro
O alivio de não ter que encarar de novo a personagem
Era enorme
Sentiu-se suja
Esfregou-se até quase rasgar a pele
Num último momento de desespero
Imergiu na banheira de espuma a transbordar
Assim fica,
Até que algo mude de curso
E desta se foi a prostituta
Num outro dia banal
Só um
Só mais um dia de oficio ingrato
Para quem só pode amar com o corpo
Sempre só um
Só mais um
Contudo,
Não o derradeiro último!
Madalena Rocha
30-5-2006
Uma nova visao do mundo
Já só queria sentir aquela sensação… Não ouvir nada! Só o som da água fria do chuveiro, a escorrer pelo meu corpo levando lentamente cada gotícula de sal que se impregnaram em mim enquanto caminhava na praia… Não sei quanto tempo andei…sei que foi tempo de mais! Procurei a exaustão dentro de mim e ao contrário dos outros dias, não havia maneira de ela chegar… As palavras do médico, ainda ressoavam cá dentro e não sei bem porquê, encheram-me de força, ao contrário do que seria de esperar! Por fim, cansei-me simplesmente psicologicamente de andar e deixei-me ficar estendida da areia! Primeiro de olhos fechados sentido a textura da areia nas minhas mãos, depois o som do mar… deixei entrar dentro de mim, ser eu! Por fim, de barriga para baixo e cabeça apoiada na palma das mãos, fiquei simplesmente a vê-lo…
Relembrei as brincadeiras ao lado de um amigo… As palavras tontas, os desabafos, as frases célebres enunciando o desejo de morrer! Brincamos até com a estúpida mancha, ele beijou-a… sempre a brincar!
Agora, passou tudo a uma realidade estranha! Não é triste, não me consome, não me leva a pensar nada… E por isso mesmo, nem sei porque me deixei chorar enquanto andei sozinha pela praia… Pensei em ti! No que dirás… de certa forma, não te quero contar! Quero que fiques com a minha imagem intacta, tal como no dia em que a viste pela primeira vez… Sinto demasiado desprezo pelos sentimentos de compaixão e pena neste momento! Se to disser, vais mudar… vais deixar de ser tu e eu vou acabar por passar pelo que não quero!
Sinto, embora sem saber porquê, um alívio enorme no peito… Quase um sentimento de cobardia… que ironicamente, me faz sentir bem! Sinto-me livre agora… livre para ser louca, ousada, rebelde… fazer tudo o que for e não for aceite, por quem quer que seja! Sinto-me livre para experimentar tudo o que sempre desejei e nunca te disse…
Não sei até quando… Só isso, não me souberam dizer!
Agora, enquanto passo a esponja meticulosamente por cada pedaço do meu corpo, sinto como se este banho fosse único, como se me lavasse de outra forma! Não me apetece acabar… Desde que as palavras derradeiras (ou não) foram ditas, tudo se tornou diferente… Em vez do autocarro habitual, apeteceu-me andar a pé… reparei num monte de coisas! Pequenos pormenores, que da janela de um autocarro apinhado, nunca seria capaz de me aperceber… Sorri a estranhos, troquei olhares furtivos, beijei faces de idosos, brinquei com as crianças da rua… até o inspirar do ar me pareceu diferente! Só uma coisa me pareceu exactamente igual… aquela praia!
Quero esquecer a frase do médico… Pela forma como ma disse e pelo seu olhar piedoso que me meteu nojo! Haveria mil e uma formas para mo dizer, não me importaria do mesmo modo, mas um simples: “Estás a morrer” é seco de mais!
Clara Rodrigues
27-7-2006
Amo-te, é o que fica

Desta vez
Houve algo que se perdeu
Não sei o que foi
Não consigo lembrar
Não sei o lugar
Não sei a hora
Não sei quem nos rodeava
Sei que estavas tu
E eu!
Desta vez
Eu fazia parte do sonho
Tal como tu
De novo um abraço
Dois pares de olhos tristes
Sussurros
Outro abraço
Um beijo na face
Um pouco mais apertado
Sim
Apertaste-me mais
Como se tentasses
Desesperadamente
Mas inevitavelmente
Que aquele momento não acontecesse
Que tudo não passasse de algo sonhado
Mas sonhado sem sentido!
Um abraço
Um afago no meu cabelo
Um segredo
“Perdoa-me por não evitar
Por não conseguir arrancar isto do meu peito
Perdoa-me por seres tão importante para mim
…”
A voz diminuiu de volume
Só um sussurro
Para nem o vento ouvir
Só o teu coração
“…amo-te!”
Virei as costas
Andei na direcção oposta a ti
A mim
Ao meu coração
Acordei triste
Sem rumo
Sem destino
Sem saber o k sentir
Sem saber
(só uma vez mais)
Como interpretar este sonho!
Mas amo-te
É a palavra que fica
E o que fazer com estas letras
Não sei!
Clara Rodrigues
7-7-2006